Opinião – Porta-aviões, um bom problema

NAe-37

Como sempre diz um amigo executivo de uma empresa nacional da área de defesa, ao se referir a negócios: “traga-me um problema; eu prefiro ter problemas a resolver, do que não ter um contrato e seus problemas.”

Daí minha correlação: uma Marinha que tem um porta-aviões tem um bom problema. Pior seria se não o tivesse (vide a derrocada da Armada Argentina (ARA) após dar baixa no seu 25 de Mayo).

O Brasil, face às restrições orçamentárias impostas à Marinha do Brasil (MB), vive um dilema nos dias de hoje: abolir o emprego de um porta-aviões? Modernizar o A-12 São Paulo? Ou encomendar a construção de um novo porta-aviões? Ou, ainda, dar baixa no navio capitania de sua Esquadra e comprar um porta-aviões usado por oportunidade?

A título de ilustração, abaixo tem-se uma ideia dos custos de construção de um porta-aviões.

  • Gerald R Ford – US$ 13.5 bilhões
  • George HW Bush – US$  6.26 bilhões
  • Queen Elizabeth (UK) – US$ 3.7 bilhões
  • Charles de Gaulle (France) – US$ 3.7 bilhões
  • Cavour CVH (Italy) – US$ 2 bilhões
  • Hyuga DDH (Japan) – US$ 1.06 bilhões
  • Vikrant (India) – US$ 762 milhões

Cabe ressaltar que os menores custos de aquisição estão relacionados aos porta-aviões de operação VSTOL (Vertical or Short Takeoff and Landing), apresentando custos mais elevados os de operação CTOL (Conventional Takeoff and Landing, estes dotados obrigatoriamente de catapultas e aparelho de parada). A MB opera os porta-aviões CTOL, desde o navio-aeródromo ligeiro Minas Gerais – A11, incorporado à Armada em 1960. Este modo de operação requer um longo período de treinamento das tripulações envolvidas para atingir-se a eficiência operacional segura.

Conforme descrito na Estratégia Nacional de Defesa (END), onde são elencados os principais objetivos da defesa, destaco para a análise desse assunto os seguintes:

  • defender os interesses nacionais, as pessoas, os bens e os recursos brasileiros no exterior;
  • contribuir para a estabilidade regional;
  • contribuir para a manutenção da paz e da segurança in­ternacionais;
  • intensificar a projeção do Brasil no concerto das na­ções e sua maior inserção em processos decisórios interna­cionais;
  • estruturar as Forças Armadas em torno de capacidades, dotando-as de pessoal e material compatíveis com os plane­jamentos estratégicos e operacionais;

Além disso, conforme amplamente debatido em diversos fóruns, um país com as aspirações do Brasil no cenário internacional vê-se obrigado a ter uma Esquadra forte e bem equipada, nucleada em um porta-aviões, para atingir seus objetivos estratégicos; caso contrário, corre-se o risco de:

  1. não cumprir os objetivos de defesa quando da necessidade real de efetivo emprego das Forças Armadas (vide o conflito das Malvinas ou Falklands, onde a Royal Navy, sem a previsão de um conflito a curto prazo, havia dado baixa em suas aeronaves de alarme aéreo antecipado (AEW), e, surpreendida pela ação argentina teve que improvisar e desenvolver tempestivamente a aeronave SeaKing com o referido sistema; do mesmo modo a ARA, face a reduzida capacidade operacional de seu porta-aviões e escoltas, que sequer suspenderam dos portos devido `a ameaça de um submarino nuclear inglês no teatro de operações marítimo e, aliado a esse fato, a inexistência de uma aeronave reabastecedora tipo AAR (air-to-air refueling, como as futuras aeronaves KC-2 Turbo Trader recém adquiridas pela MB junto à US Navy e ora em fase de modernização), teve a ARA que lançar mão de vagas aéreas a partir de terra com suas aeronaves Super Étendard armadas, missões essas que se assemelharam às kamikaze japonesas da Segunda Guerra Mundial. Como já dizia Rui Barbosa “Esquadras não se improvisam”;
  2. tornar-se um ator de pouca relevância no cenário internacional. Aliás, como sempre é propagado pelos Estados Unidos em suas campanhas midiáticas: “porta-aviões, 90.000 toneladas de diplomacia”.

Voltando ao dilema brasileiro, todas as perguntas têm soluções exequíveis de serem adotadas: abolir o emprego de um porta-aviões vai de encontro à consecução dos princípios de defesa acima elencados e descritos nos diversos documentos condicionantes, como o Plano Estratégico da Marinha (PEM) e o Plano de Articulação e Equipamento da Marinha (PAEMB); a modernização do A12 requer aproximadamente quatro anos após tomada a decisão; a aquisição de um novo porta-aviões demanda pelo menos cinco anos após a assinatura do contrato com um estaleiro, desde que haja um estaleiro disponível para um encomenda dessa envergadura; uma aquisição por oportunidade de um porta-aviões CTOL de propulsão convencional, (modo de operação a ser mantido em função da escolha pela Força Aérea do caça sueco Gripen NG o que, por comunalidade operacional entre as duas aviações, implicará na adoção pela MB do futuro caça naval Sea Gripen NG), recai sobre uma única alternativa viável no momento: o USS John F. Kennedy (CV 67), de aproximadamente 80 mil toneladas, descomissionado em 2007.

Portanto, a solução dependerá do grau de comprometimento do estado brasileiro com a área de defesa e no estado de prontidão que o Brasil deseja para emprego de sua Marinha a curto, médio e longo prazos. Ter um porta-aviões ainda é um bom problema para o Brasil!

Rogério Miccuci

Aviador Naval da reserva da MB

Fonte: Tecno Defesa

Sobre Joshua Duarte

Gosto de Filmes e livros de ficção, fantasia (principalmente Héry Póty), história e + ou - Best Seller. Odeio Gente idiota, ignorante, Poser, e que só sabe falar bem ou mal de PT e PSDB, pq pra mim é tudo a mesma bosta. Haaaaaa!!! Quase que eu esqueço, adoro rock e odeio funk, por mim, poderia cair um raio em cima de tudo que for funkeiro.

Publicado em 09/15/2015, em Brasil, Tecnologia e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Nenhum cidadão Brasileiro por mais “pacifista’ que seja, não pode opinar sobre o que os Governos e Militares das três Armas pensam e agem para o bem de sua nação. Não é disso que o povo esta preocupado. Porem em razão dos maiores escândalos ja encontrado nesses ultimo treze anos de Governo Corrupto, o que nos tememos é o Dinheiro que pode estar indo pro “ralo” da desonestidade. Sem bem que do Exercito sempre tivemos bos noticias no tratamento da coisa publica e seus trabalhos realizados nas obras de que participou com bastante patriotismo e honestidade. Quanto a Aeronáutica e Marinha, não tenho muito conhecimento. Numa obra executada pelos Engenheiros do Exercito no Aeroporto de Cumbica, é sabido que apos terminado o serviço foi devolvido o restante de dinheiro que sobrou. Se esse dinheiro realmente voltou para os cofres do BC, ou algum “gato” comeu, ninguém sabe.

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  2. eadem@ig.com.br

    Sou um antigo estudioso de estratégia militar e só pra não revelar minhas soluções exclusivas para especuladores que não são do ramo, não revelarei aqui meu parecer sobre o que faria para substituir um porta-aviões.

    Todavia, nada me impede de afirmar que assim como os veleiros foram superados pelos navios a vapor, os couraçados perderam a primazia para os porta-aviões e agora chegou a vez destes irem para o ferro velho substituídos por outras opções mais inteligentes.

    Quais?

    Se quiserem mesmo saber, aceito ser contratado e bem pago para conferenciar a respeito com qualquer tipo de gente do ramo.

    Não estranhem minha oferta, pois se pagam os tubos ao contratarem o Luladrão pra falar merda, por que não me pagar decentemente para eu ENSINAR alguma coisa aos idiotas desta Pátria?

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  3. O “sucatão” que ia para desmonte na França foi empurrado para o Brasil contendo apenas maquina cansada e casco porque precisávamos mesmo de uma plataforma de aviões para levar a guerra a algum lugar ainda indefinido. Conversando informalmente com um oficial da marinha de guerra questionando o “sucatão”, disse-me ele que era para nos mantermos atualizados e silenciei sobre a existência dos aviões para uso no “Navio Aeródromo” comprados de terceira mão, tendo um como “enfeite” (o chamado fusca aéreo),no “sucatão”. Lógico que precisamos de tal nave que necessita de uma boa escolta para operar quando precisarmos ir cobrar os empréstimos feitos pelo BNDES às “grandes potencias” estrangeiras. Independentemente de outros questionamentos, apenas resta sabermos se temos condições economicas para manter aquela “bela nave” constantemente presa ao cais apenas para exibição aos passageiros das barcas e navios que trafeguem pela baia de Guanabara porque se ela desatracar
    , além do custo operacional ainda corre o risco de voltar rebocada ou se arrastando por alguma quebra do equipamento de propulsão avariado pela idade de uso. Agora falam em modernizar o navio e alem do custo para tanto, quando ficar pronto é prevista então sua obsolescencia.

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  4. Raul shayek

    Eu sempre achei que o brasil deveria vender essa sucata e comprar um usado americano, a palavra usado pode dar medo, mesmo assim a frota americana regular é em torno de 10 a 12 porta aviões, e existem vários porta aviões descomissionados, que ainda tem muito gás pra agir, como o colunista falou o CV-67 é o melhor no momento já que os yankees nunca venderiam um nuclear, gostaria de saber a opinião do redator se isso tem alguma chance de acontecer?
    Seria muito bom ver o JFK com a bandeira da MB adentrando na baía de Guanabara intimido de sea gripens…
    Não custa nada sonhar kkk

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