Olhando para a Força de Defesa da Guiana

Coronel Julian Bruce Lovell, Estado-Maior da Força de Defesa da Guiana. (Foto: Diálogo/Sandra Marina)

Coronel Julian Bruce Lovell, Estado-Maior da Força de Defesa da Guiana. (Foto: Diálogo/Sandra Marina)

Sandra Marina/Diálogo

Entrevista com o Coronel Julian Bruce Lovell, Estado-Maior da Força de Defesa da Guiana

Aproximadamente do tamanho da Inglaterra e com cerca de 750 mil habitantes, a Guiana faz parte dos países da bacia do Caribe, mas está localizada na América do Sul, na fronteira com a Venezuela, Suriname e Brasil. Com uma densa floresta explorada pelas drogas, armas e até mesmo traficantes de pessoas e rebanhos, a Força de Defesa do país luta contra inimigos duros e esquivos.

Durante um intervalo da Conferência sobre Segurança dos Países do Caribe (CANSEC 2013), realizada em Miami, Flórida, em dezembro de 2012, e patrocinada pelo Comando Sul dos EUA, Diálogo teve a oportunidade de conversar com o Coronel Julian Bruce Lovell, do Estado-Maior da Força de Defesa da Guiana, sobre os desafios à segurança que seu país enfrenta e a importância do treinamento, manutenção e interação com os exércitos do Brasil e dos Estados Unidos.

Diálogo: Quais são as principais preocupações e desafios de seu país no momento?

Coronel Julian Bruce Lovell: O primeiro desafio que temos é a necessidade de proteger nossas fronteiras nos três domínios, ar, terra e mar, e evitar ou reduzir o tráfico ilícito. Esse tráfico ilícito envolve não apenas drogas mas também armas, seres humanos, contrabando e rebanhos. Ainda que pareça estranho, descobrimos que grandes quantidades de animais estão sendo contrabandeadas da Venezuela para a Guiana. O perigo disso é que a Guiana foi considerada livre da febre aftosa e, caso isto ocorra, essa situação será comprometida. Evitar ou reduzir o tráfico ilícito é difícil para nós porque contamos com uma força pequena, o que nos impede de manter uma presença constante em todos os locais para combater esse tráfico ilícito. Nossa segunda preocupação quanto à segurança é reduzir os altos índices de crime e criminalidade que vêm ocorrendo no momento na sociedade. Trata-se de uma questão interna, mas existem fatores tanto externos quanto internos que causam os altos índices de crime e criminalidade pelos quais passamos agora. Por exemplo, um dos fatores internos que contribuem para esse problema é causado por uma quebra geral da lei e da ordem. Eu diria que essas são as duas principais preocupações que temos na Guiana: proteger nossas fronteiras contra o tráfico ilícito e reduzir os altos índices de crime e criminalidade na sociedade. Nas duas áreas nós, o Exército, temos um papel a desempenhar. Quanto à área que luta contra os altos índices de crime e criminalidade, por exemplo, nossa função é apoiar as agências policiais.

Diálogo: Qual é então a importância da colaboração com os demais países para enfrentar esses desafios?

Cel Lovell: Um dos princípios básicos para se lidar com os desafios deve ser a colaboração e a cooperação com outros Estados. Se me perguntarem quais são os benefícios de trabalhar com outras nações, eu diria que posso identificar três, talvez. Primeiramente, para um pequeno país, quando se trabalha com outros países, principalmente os maiores, pode-se tirar proveito do conhecimento e capacidades que adquirimos ao trabalharmos com eles. Isso serve para melhorar nosso profissionalismo, portanto sempre recebemos de bom grado a oportunidade de treinar junto com outras forças. Outro aspecto também de especial importância para nós, como uma força pequena, é que temos a oportunidade de nos beneficiar dos recursos que não temos ou que temos em quantidade insuficiente. Há ainda um terceiro benefício… interagir com outras nações nos dá a oportunidade de corroborar nossa capacidade, de avaliar o nível em que estamos.

Diálogo: Como suas relações com o Exército brasileiro colaboram com sua Força de Defesa?

Cel Lovell: Nosso relacionamento com as Forças Armadas do Brasil remonta ao final dos anos 60. Esse relacionamento é primordialmente construído a partir do treinamento; as forças brasileiras nos dão oportunidades de treinar em diversas áreas: infantaria, logística, marítima e de engenharia. No momento temos dois instrutores brasileiros na Guiana. São instrutores de selva em nossa escola de selva e é feito um rodízio anual. Há também treinamento no campo dos esportes e atualmente temos um treinador brasileiro de futebol. Assim sendo, o principal foco de nosso relacionamento com o Brasil tem sido o treinamento, mas também há colaboração em outros níveis. Nós nos reunimos todo ano para cooperação de inteligência. A cada dois anos é realizado um encontro bilateral, onde discutimos uma série de temas, não apenas o treinamento, mas também temas relativos às questões operacionais ao longo de nossas fronteiras. Temos também, anualmente, um encontro regional com o comandante brasileiro da região de Roraima. Ele se reúne com nosso comandante do Batalhão de Infantaria e é responsável por aquela área da Guiana. Temos um relacionamento muito forte e duradouro com o Brasil.

Diálogo: E quanto a sua cooperação com as Forças Armadas do Suriname?

Cel Lovell: Considerando nosso relacionamento com o Suriname, eu diria que temos um relacionamento respeitável e cordial com o Exército Nacional do Suriname. Esse elo baseia-se no conceito de que somos vizinhos contíguos, precisamos cooperar mutuamente e lidar com os desafios comuns que enfrentamos. Assim sendo, as relações que mantemos com o Suriname, como disse, são de respeito e cordialidade, mas não tão fortes e profundas como as que temos com o Brasil. Mas, com toda certeza, colaboramos e cooperamos mutuamente.

Diálogo: O principal tema da CANSEC 2013 foi a manutenção dos recursos que temos atualmente nessa realidade econômica. Como a Força de Defesa da Guiana lida com isso?

Cel Lovell: A manutenção precisa ser baseada na filosofia de fazer com que as coisas funcionem com menos. Isto significa que é preciso avaliar o que se tem. Temos duas abordagens fortes. Primeiramente, precisamos continuar a treinar e educar nossas fileiras militares. Quanto a manter, e como realizar a manutenção preventiva, devemos observar um cronograma preventivo de manutenção. Essa é uma das coisas que precisamos sempre martelar nas cabeças de nossos militares e que só pode vir do treinamento e da educação. O segundo aspecto tem a ver com as relações bilaterais e o que elas podem fazer por nós no campo da manutenção. Elas nos ajudam a aprender as melhores práticas e a adotá-las. No início deste ano tivemos uma equipe do Comando Naval Especial de Guerra dos Estados Unidos e foi impressionante o conhecimento que essa equipe passou para nosso pessoal em termos de como cuidar e manter as embarcações onde eram realizadas as instruções, de uma maneira totalmente diferente e nova. Trata-se de um grande benefício decorrente de se manter esses tipos de relações bilaterais.

Diálogo: O senhor gostaria de acrescentar alguma coisa?

Cel Lovell: Somos uma força muito pequena e acessível, mas temos orgulho de sermos extremamente profissionais. Com toda certeza, apreciamos qualquer oportunidade de demonstrar nosso profissionalismo.

Fonte: Revista Diálogo

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Sobre Francisco Santos

Francisco Santos é jornalista a mais de 5 anos, hoj é correspondente do Jornal Diário do Estado (Paraná), em seus momentos livres escreve para o Blog Alvo na TV, com colunas críticas, imparcial, profissional ao extremo e dedicad ao mundo da TV. É fundador e dono do Blog de defesa Guerra & Armas, que já conta com um crescimento considerável e esta prestes a se tornar um dos maiores Blogs de defesa do país, com compromisso e credibilidade o jornalista Francisco Santos mostra toda sua qualidade e amor ao que faz.

Publicado em 12/21/2014, em América do Sul, Exército, Internacional e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. eadem@ig.com.br

    Apesar da oficial “autodeterminação e independência”, todas as três “guianas” não passam de colônias mal-disfarçadas das respectivas matrizes inglesa, holandesa e francesa e como tal não são mais que “cabeças-de-praias” estrategicamente mantidas no norte da América do Sul (mas bastante próximas ao Caribe, Zona do Canal do Panamá e do resto da América do Norte que culmina com o México.

    Essas “guianas” existem apenas para em caso de guerra generalizada (como a Segunda Guerra Mundial e a das Malvinas, por exemplos), para emprestar toda a sorte de apoio militar às Inglaterra, Holçanda e França, mas também aos EUA-Canadá e tudo no interesse maior da preservação da supremacia capitalista maçônica orientada pelos supremos interesses sionistas predominantes no Ocidente.

    São regiões mantidas propositadamente despovoadas e atrasadas para não permitir real autonomia política e muito menos, auto-sustentação econômica, as quais, obviamente, são providas e manipuladas pelos respectivos governos coloniais.

    Vai daí, os problemas da defesa “guianenses” não fazem parte do ideário ou das necessidades de nenhum dos três desgraçados, submissos e explorados povos guianos, posto que se existem, foram provocados (ou atendem aos exclusivos interesses) dos dominadores.

    Vai daí, é tudo balela do “general” zuavo e quiçá. xibungo pleno!

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