Legado de Vargas sobrevive 60 anos depois de sua morte

A morte de Getúlio Vargas, que completa 60 anos neste 24 de agosto, não pôs fim à liderança exercida pelo político duas vezes presidente do Brasil. Mesmo após seis décadas de sua ausência, Vargas mantém-se popular e tem o nome lembrado devido a realizações que mudaram o curso do País.

Getúlio Vargas ‘continua vivo’ nas redes sociais
O nacionalismo getulista e a 2ª Guerra Mundial
A morte e as polêmicas do estadista gaúcho

Vargas (centro) e apoiadores em Itararé, São Paulo, a caminho da Revolução de 30 Foto: Claro Jansson / Wikicommons / Wikimedia

Se é verdade que ele fortaleceu a indústria nacional e criou a legislação trabalhista ainda em vigor, também é sabido que o gaúcho de São Borja teve atos arbitrários em seu governo. Esse dualismo, inclusive, é a marca de Getúlio Vargas, na visão de historiadores e biógrafos ouvidos pelo Terra. Para eles, cada vez mais o político é lembrado de forma positiva por uma sociedade que enaltece seus resultados, mas não necessariamente os meios utilizados para alcançá-los.

Mas adjetivar a postura e o legado de Vargas não é tarefa fácil. Há quem o defina como um ditador e quem o descreva como um democrata. Também existem referências a ele como um presidente autoritário, ao mesmo tempo em que algumas correntes o defendem como um político de grande sensibilidade social.

Embora paradoxais, os diferentes modos de analisar Vargas não são excludentes. Para o jornalista Juremir Machado da Silva, doutor em Sociologia e professor da PUC-RS, autor de Getúlio (2004), o gaúcho soube se adaptar às circunstâncias na vida política sem abandonar suas convicções.

De acordo com Machado, o ex-presidente foi conservador no início de sua carreira política, ditador no primeiro governo e democrata no segundo mandato. “O Getúlio precisa ser visto como um homem do seu tempo. Ele era de uma época na qual o mundo todo era golpista e não havia uma tradição democrática. Por qualquer coisa, se fazia uma revolução”, pondera.

Seu primeiro mandato como presidente, vinculado à antiga Aliança Liberal, foi de 3 de novembro de 1930 a 29 de outubro de 1945, período no qual implantou o chamado Estado Novo. Sob o argumento de combater a ameaça comunista no País, Vargas fechou o Congresso Nacional, extinguiu os partidos políticos e outorgou uma nova Constituição, o que lhe conferiu o total controle do Poder Executivo.

Segundo o jornalista, o Estado Novo se encaixa no contexto da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), de centralização do poder e nacionalismo. Quando retornou à Presidência para o segundo mandato, iniciado em 31 de janeiro de 1951, quando filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Vargas era um político de nova visão.

“Acredito que, com o tempo, ele foi percebendo que não era mais possível aquilo (ditadura) e que tinha que consolidar uma democracia”, afirma. “Quando Getúlio voltou, já voltou modificado. De golpista, passou a ser golpeado”, completa, se referindo às conspirações para derrubá-lo do poder e que, por fim, culminariam em seu suicídio, três anos e meio depois.

Como o Brasil vê Getúlio
Ainda que seis décadas de sua morte tenham passado, Getúlio Vargas segue despertando debates, discursos apaixonados e sentimentos antagônicos, movidos em especial pelo conflito entre as suas realizações e o modo como elas tomaram forma.

“Há basicamente dois grupos: a favor ou contra, mas ninguém é indiferente ao Getúlio”, define Machado, para quem o gaúcho foi o político mais importante da história do Brasil. Como exemplo desse paradoxo, o professor e jornalista lembra de um embate eleitoral entre Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva: enquanto um sugeria o fim da chamada Era Vargas, o outro pregava a sua continuidade. Apesar das divergências, para Juremir, o Getúlio que ajudou a mudar o País é o que cada vez mais aparece.

Na opinião do doutor em História Marcelo Hornos Steffens, professor da Universidade Federal de Alfenas, em Minas Gerais, a visão sobre quem foi Vargas apresenta variações regionais. No Rio de Janeiro, por exemplo, é comum “encontrá-lo” em diversas estátuas espalhadas pela cidade e em rico acervo documental e iconográfico no museu da República, instalado no antigo Palácio do Catete, e na sede da Fundação Getúlio Vargas.

Em Porto Alegre, capital do Estado natal do ex-presidente, Steffens lembra da existência de uma pequena torre junto à Praça da Alfândega, em referência à campanha “O petróleo é nosso”, além da reprodução da Carta Testamento de Vargas. O local ainda é visitado todos os anos, no dia do suicídio de Getúlio, por um pequeno grupo de pessoas.

Por outro lado, no Nordeste, Vargas possui um reconhecimento muito menor que o do ex-presidente Lula, por exemplo. Pesquisa realizada em 2010 pelo Instituto Maurício de Nassau, em Pernambuco, que questionava “qual era o melhor presidente do Brasil?”, trouxe o nome do gaúcho apenas na quarta colocação, com 1% dos votos – atrás, inclusive, da opção “Nenhum”. Neste estudo, Lula teve 89,9% da preferência dos entrevistados.

“A dinâmica da memória na sociedade tem uma íntima relação com o presente e deve-se ter o cuidado para não cairmos na criação de mitos em relação a certos personagens, evitando, por outro lado, o seu esquecimento. Nisso, acho que Getúlio ocupa um bom lugar”, afirma Steffens.

Apesar do maior apelo “getulista” nos Estados onde ele nasceu e onde governou, Vargas está representado em todo o País, a começar por dois municípios (Getúlio Vargas, no Rio Grande do Sul e em Presidente Getúlio, Santa Catarina), pelo distrito de Getulândia em Rio Claro, Rio de Janeiro, e por 66 cidades que possuem praças batizadas em sua alusão, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro. Além disso, conforme o registro dos Correios, há 336 municípios com logradouros (ruas, avenidas, travessas e alamedas) que levam o seu nome.

As realizações de Getúlio

1931: criou o Conselho Nacional do Café
1931: criou o Departamento de Correios e Telégrafos
1932: instituiu a Carteira de Trabalho
1933: estabeleceu o Código Eleitoral e, com ele, o voto secreto e o voto da mulher
1934: criou o Código Florestal
1938: instituiu o Conselho Nacional do Petróleo
1939: criou o Conselho de Águas e Energia Elétrica
1941: fundou a Companhia Siderúrgica Nacional
1942: criou a Companhia Vale do Rio Doce
1943: sancionou a lei que estabeleceu a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho)
1944: instituiu o Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial
1952: criou o BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico)
1952: fundou o Banco do Nordeste
1953: criou a Petrobras
1953: sancionou a lei sobre liberdade de imprensa
1954: apresentou a proposta de criação da Eletrobras

 

Terra

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Sobre Francisco Santos

Jornalista e Editor.

Publicado em 08/24/2014, em Notícias e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Na verdade vivi pouco a era Vargas pois era bem pequeno, mas hoje, já no declínio da vida, permito-me dizer que, como todo o governo, teve lá seus erros. Lembro bem do “queremismo” e da marcha “bota o retrato do velho outra vez”, mas não posso negar os benefícios por ele implantados no Pais. Trouxe-os pela força de uma ditadura, à modernidade, criando um parâmetro para o Brasil de que o progresso é feito “aos arrancos”, melhor dizendo, “na marra”. Deixou um grande legado, como também Juscelino que “na marra” construiu Brasilia,acabando como quadradinho amarelo no mapa onde dizia “futura capital do País”. Vivi a Revolução de 64 que também “na marra” deixou muitos legados nos chamado “anos de chumbo”. Sendo oportuno lembrar que tínhamos a segurança de andarmos pelas ruas a qualquer hora do dia, a escola incutia no aluno o conceito de civismo “na marra” também e a saúde não era tão precária, como nos dias de hoje. Votei no Collor e desiludi-me. Caiu porque resolveu governar ‘na marra” sem conchavos com o Congresso(assim me pareceu na época), que o cassou. Pouco tempo depois entrou o PT com o Lula e ai vimos o acerto do ditado “se quer ver o vilão, ponha-lhe o cargo na mão”.Uma vergonha desde seu inicio onde vi uma pessoa que criticava as ausências do antecessor e ele mesmo nunca ficou no Pais, só vivia viajando e o pais que se danasse we até o Collor associou-se a ele (que decepção).Com a compra dos políticos, criou Leis em beneficio proprio e de sua quadrilha. Deu-nos oito anos de escândalos e ao sair do Palácio, carregou tudo, ate a imagem do cristo na cruz (que vergonha) como bom “gafanhoto predador ” que é, mesmo sendo hoje um bilionário junto com seus filhos(algo que não sucedeu com nenhum ex presidente do Pais), Não satisfeito, empurrou pela guela do povo seu “pau mandado” que deu continuidade a seus métodos. o “pau mandado” construiu e reformou estádios de futebol na esperança de que o povo fosse enganado pelos “elefantes brancos”, mas a saúde deteriorou direto e as promessas não foram cumpridas. Em vez de consertar as estradas do Pais e fazer outras obras publicas necessárias, deu dinheiro para outros Países para pagamento das empreiteiras brasileiras que lá faziam obras (porque seria?).A Bolsa Família (como exemplo) teve um aumento de 10% e aos aposentados cinco e pouco(logico,o aposentado tem mais é que morrer, não são mais uteis ao País pois não produzem e poucos votam – eutanásia?). o Circulo esta fechado (melhor seria o “circo”), e ate a Justiça esta na “manga dos corruptos”. As maquinas eleitoreiras são fraudáveis (já comprovado sobejamente), e o s militares “esperam o movimento do povo”, esquecendo que revolta civil é pior do que a militar pois não tem limites ( vide a revolução francesa e ate a comunista). Sou hoje uma simples civil, advogado aposentado com uma formação militar de Oficial da Reserva do Corpo da Armada, viúvo, com 73 anos de vida e tenho pena de não poder mais fazer algo pelo meu Pais que aprendi a amar desde a infância, amor este que vi possuir quando ao voltar a Europa sobrevoei meu Rio de Janeiro, tendo em minha mente o “samba do avião ” do Tom Jobim, entendendo então sua mensagem

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  2. As realizações de Getúlio

    1931: criou o Conselho Nacional do Café
    1931: criou o Departamento de Correios e Telégrafos
    1932: instituiu a Carteira de Trabalho
    1933: estabeleceu o Código Eleitoral e, com ele, o voto secreto e o voto da mulher
    1934: criou o Código Florestal
    1938: instituiu o Conselho Nacional do Petróleo
    1939: criou o Conselho de Águas e Energia Elétrica
    1941: fundou a Companhia Siderúrgica Nacional
    1942: criou a Companhia Vale do Rio Doce
    1943: sancionou a lei que estabeleceu a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho)
    1944: instituiu o Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial
    1952: criou o BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico)
    1952: fundou o Banco do Nordeste
    1953: criou a Petrobras
    1953: sancionou a lei sobre liberdade de imprensa
    1954: apresentou a proposta de criação da Eletrobras.

    So por esta lista, ja lhe da um voto de Figura Importante para o Brasil. Embora tenha se destacado como uma figura “camaleonica”, capaz de se metamorfosear conforme a necessidade. So perde para Janio Quadros, um cachaceiro que teve a ousadia de declarar ataque contra navios de Guerra Americanos em Patrulha ostensiva aos ladrões de Pescado no Atlantico Norte a menos de 12 milhas da costa Maranhense e Paraense. Atitude que lhe rendeu uma soma de apreciavel de forças ocultas em Dollares Americanos EM UM BANCO AMERICANO.

    Ainda perdeu para o molusco 9 tentaculos, mais nocivo do que o ebola da Africa.

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  3. eadem@ig.com.br

    Neste Brasil sem memória e com a predominância da cultura da ingratidão, só pessoas com mais de 70 anos de idade sabem quem foi Getúlio e reconhecem a importância que ele teve na política nacional. Pena é que péssimos políticos lançam mão do nome desse estadista para pregarem asneiras a esta nação de analfabetos crédulos e úteis.

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  4. Antonio Cordova

    E FHC e a tucanalha, pegou essa mesma lista e iniciou o desmonte. Chegando ao cúmulo de FH dizer q acabaria com a era Vargas (jamais pois ele entrou para a história nacional como o maior estadista). Agora querem voltar para acabar o serviço com suas idéias (ou falta de) neoliberais. E a outra candidata (Marina), aliou-se ao maior banco privado do país para cuidar do “meio ambiente econômico”. Vergonha.

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